A Filha de Olorum

por Fernando Sepe 

E sua majestosa voz ecoou pelo alto, pelo embaixo, pela esquerda e a direita, pelo a frente e o atrás, pelo envolta. Por determinação do pai – mãe de Todos, uma nova religião nasceria sob solo brasileiro. Era sua filha mais nova, a Umbanda. E um verdadeiro rebuliço começou no Orum, pois logo o mais respeitado dos Orixás se ergueu de seu Trono e disse que ele seria o responsável e sustentador maior da religião. Oxalá abençoava o nascer da mais nova filha de Olorum, e a assumia dos Seus Divinos Braços. Nela a espiritualidade e a fé estariam presentes, como aceleradora da evolução de todos. Não existiriam dogmas, e apenas um grande fundamento: Amor e Caridade.  E logo começaram a chegar os Orixás, todos também abençoando e apadrinhando a nova filha de Olorum.  Ogum e Iansã, os mais emocionados de todos, diziam que protegeriam a nova religião com as armas da Lei.

E então a voz trovão de Xangô ecoou, pelos quatro cantos do Orum, dizendo que ele seria a Justiça a favor de todos. Sua palavra seria Lei, e todos os filhos de Umbanda nada temeriam, pois todos são filhos de Rei, o Rei Xangô. Também apresentou a todos sua mais nova esposa, Egunitá a quente irmã mais nova de Iansã. Ela que era “fogo puro” encantou a todos, e disse que protegeria a Umbanda.   E assim a filha mais nova de Olorum ganhou seus dois padrinhos: a Lei Maior e a Justiça Divina.

 Mas algo engraçado aconteceu. Muitos espíritos vindos de um dos muitos bairros do Orum, Aruanda, disseram que eles seriam os trabalhadores e a linha de frente da religião, além de assumirem a condução dos médiuns umbandistas.   Oxalá que é o senhor das formas, e pai da Umbanda, consentiu e determinou que por homenagem ao povo negro e indígena todos assumissem a forma de Caboclos e Pretos-velhos.  E logo chegou Oxóssi de uma de suas muitas caçadas, e assumiu toda a linha de Caboclos, tornando-se o Rei dos Caçadores. Distribuiu um diadema a todos consagrando-os como caboclos. Todos os caboclos trazem até hoje o diadema ganho do Rei das Matas.   E o velho Obaluayê junto de Nanã abençoou todos os espíritos anciões que se consagravam ao trabalho da linha de pretos-velhos. Concedeu a eles a sabedoria que só o passar do tempo pode conceder. E todos se transformaram em ótimos conselheiros e curadores, principalmente das chagas da alma.

E por falar em tempo, ele também estaria presente. Oyá-Tempo (xará de Iansã – Oyá), seria responsável pelas forças do tempo dentro da nova religião. E como ela é muito observadora e, vamos dizer, bastante desconfiada, seria a guardiã da fé e dos processos da religiosidade. E “ai” de quem pisasse na bola da religiosidade. Lá estaria Oyá com seu olhar congelante… 
Iemanjá que é uma  “mãezona” queria que todos os espíritos que se manifestassem para a caridade pudessem ser aceitos no ritual, sabe como é, “em coração de mãe sempre cabe mais um”. E assim ficou decidido, pois ninguém tem coragem de negar um pedido da encantadora Rainha do Mar. E a Umbanda acolheria a todos, caso viessem para prestar a caridade. Surgiam então as muitas linhas de trabalho, como baianos, marinheiros, boiadeiros e os muitas vezes renegados pelo próprio povo de origem, os ciganos…   E de repente apareceu Oxum, perguntando que festa era aquela. Quando ficou sabendo que era o nascimento da mais nova filha de Olorum, começou a chorar e a abençoou com suas lágrimas que caíam de seus olhos como duas enormes cachoeiras. (Ela é muito chorona, mas não gosta que a gente fale sobre isso…)  E de presente a ela, chamou Oxumaré, que transformou tudo em cores e disse que renovaria e embelezaria tudo com seu axé colorido. E junto do seu arco–íris vieram os encantados da natureza, as crianças que seriam a alegria da Umbanda.
O “time” estava quase completo, quando da terra surgiram o amado Tata Omulu e Obá. Não muito sorridentes, para falar a verdade bem sérios e um pouco secos, disseram que também fariam parte da nova religião. Que queriam ver seus cultos renovados, e que seriam a força do elemento terra. Obá que depois de muitas desilusões nada mais queria com Xangô, resolveu unir–se a Oxóssi, e ajudá-lo a disseminar o conhecimento.   Omulu que é muito calado colocou-se ao lado de Iemanjá, dizendo que a guardaria por todo o sempre. Na verdade, até umas lágrimas foram vistas cair de seus olhos, negros como a noite. Ele é meio incompreendido, mas quem o conhece sabe que é o mais amoroso dos Orixás.

Todos estavam comemorando, quando não se sabe direito porque uma confusão começou, e ninguém mais sabia o que iria fazer. Oxalá que muitas vezes já tinha sido enganado por “ele”, não seria novamente. Logo disse: – Laroiê Exu! Você também é convidado a participar da nova religião. Será responsável pela esquerda de todos. Mas vai ter que seguir as Leis de Xangô, e será acompanhado de perto por seu querido irmão Ogum! Uma gargalhada soou por todo Orum, e Exu apareceu. Junto dele a mais bela moça, Pomba-gira. Exu ficou feliz, disse que agora teria Pomba-gira para dividir seu trabalho, mas que não abriria mão de ser sempre o primeiro a ser firmado. Não porque ele era aparecido, mas sim porque era ele quem guardaria os templos e casas de Umbanda. E muito esperto que era, disse: – Olha, eu vou supervisionar o trabalho junto com Pomba-gira. Mas vou deixar uns espíritos trabalhando com a minha força fazer o trabalho. Afinal, o que o homem faz o homem que desfaça. E também o meu irmão Oxóssi é senhor da linha de Caboclos, porque eu não posso ser senhor da Linha de Exu?

Bom, começaram umas discussões, mas acabou acertado que o Orixá Exu atuaria na Umbanda, a partir de sua linha de trabalho. Seria a linha que faria o trabalho pesado, além de serem os guardiões dos médiuns, e dos templos de Umbanda.  E assim todos os Orixás muito emocionados deram as mãos e começaram a orar pelo sucesso da mais nova filha de Olorum. E então o Pai e Mãe de Todos se manifestou:  “Meus amados filhos Orixás, a Vós eu consagro minha filha nova e dileta, a Umbanda. Que ela transforme–se em uma religião semeadora de luz, amor e caridade. Que seja espiritualista e universalista, que esteja aberta a todos de bom coração. E que em sua pedra fundamental esteja escrito o seu único dogma: Amor e Caridade!” E de Si Sete intensas irradiações partiram, e envolveram sua filha querida. Todos se emocionaram e agradeceram a Olorum por essa bênção à humanidade. Quase cem anos se passaram, e a Umbanda cresceu um bocado. 
 
Transformou–se um uma linda jovem, amorosa e alegre. Amparada por seu Pai Oxalá, e seus padrinhos, a Lei Maior e a Justiça Divina, ela vai vencendo todos os obstáculos.  Os seus trabalhadores conquistaram o coração das pessoas.  Todos correm para escutar a palavra de sabedoria do preto–velho, ou a conversa pura e alegre da criança.  Os Caboclos transformaram-se na linha de frente da Umbanda, trazendo as qualidades dos nossos amados pais e mães Orixás. Onde existe um Pena Branca, lá está a paz e serenidade de Oxalá. Onde trabalha um Sete Espadas, estão os olhos da Lei.  Exu e Pomba-gira se fizeram presentes tornando-se sinônimos de proteção e cumprimento da Lei, seja na seriedade do Tranca-Ruas, no olhar penetrante do seu Capa Preta, ou na força da Rainha Maria Padilha. Todos os espíritos podem se manifestar para a caridade, como um dia pediu a “mãezona” Iemanjá, surgindo assim a alegria dos muitos “Zés” que trabalham na Umbanda.
E principalmente a Umbanda tornou-se sinônimo de amor e caridade, de luz e evolução espiritual.  
Esse texto é apenas uma fábula, uma lenda ou um Itan, que presta também sua homenagem à filha mais nova de Olorum. É um pedido para que enfim as pessoas entendam que existe algo maior que a “minha” ou “a sua” Umbanda. Simplesmente existe A UMBANDA, filha querida de Olorum, que encanta a todos os Orixás, e enche os olhos do velhinho e amoroso Oxalá de lágrimas de felicidade e amor…
(Sepe, em homenagem a Umbanda, essa linda religião universalista, doada a todos nós pelos amados Pais e Mães Orixás).


Fonte: Textos de apoio do curso “Teologia de Umbanda” de Umbanda EAD

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