Três Sacolinhas

Eram apenas três sacolinhas, mas foi o suficiente para me jogar no chão da Terreira, onde este chão – a bem da verdade – é o meu lugar, o lugar dos indignos, visto que apenas os dignos podem ficar em pé num lugar sagrado!

Me refiro a Tenda de Xangô Sete Raios e do Exu Pedra Negra, onde eu havia audaciosamente entrado, e me deparado com cestas básicas que seriam doadas a irmãos necessitados.

E estes produtos estavam dentro de três sacolas de plástico, destas de supermercado, brancas e amarelas, mais alguns que aguardavam mais alimentos para poder formar um kit básico.

Como disse antes, esta cena domingo a noite, por voltas das 19h30, antes de iniciar o Programa Conversas de Terreiro, me jogou no chão, numa mistura de tristeza pela fome de outros seres humanos e a minha arrogância perante a Vida, e uma emoção enorme pela atitude amorosa da Mãe Andreia de Xangô e da Aline de Iansã, em socorrer estes irmãos sofridos!

E tudo o que estas mulheres tinham eram APENAS 3 SACOLAS DE PLASTICO e mais alguns solitários alimentos. Nada mais. Estavam lá, sobre um velho banquinho de madeira, devidamente organizados, num domingo a noite.

E onde TODOS NOS estávamos no domingo a noite?? E COMO nós estávamos no domingo a noite? Como dizia minha Avó Olga, Mãe de Santo Umbandista ainda da Primeira Geracao numa vila pobre de Porto Alegre, “graças a Deus” todos estávamos em uma boa casa, na frente de uma boa televisão ou de um caríssimo celular, de barriga bem cheia…

Mas e aqueles que não estavam em nenhuma destas boas situações??? Sim, eles existem e existem aos montes, como costumam afirmar alguns políticos! Eles tem cores, sexo, idade, tamanho! Ah, e nomes: alguns são Maria, João, Iracema, Fernando, Jaime, e por aí vão os nomes…

Mas pelo caminho escolhido pela sociedade nestes anos, as Marias e os Joãos são invisíveis, e quando não são, são taxados de abusados ou preguiçosos, ou de algum outro defeito social!

Tu que está lendo este texto, e eu que estou escrevendo estas mau traçadas linhas, o que pretende fazer para auxiliar estas pessoas nas esquinas ou deitadas nas calcadas? Ou aquelas que andam com os olhos para baixo, morrendo de vergonha das roupas que usam e da fome que seus filhos sentem?

Uma sugestao para nós: vamos fazer o que a Andreia Pedra de Xangô e a futura Sacerdotisa Aline de Iansã estão fazendo anonimamente!! Vamos olhar para os pobres como Jesus olhava, vamos falar com os pobres como Jesus falava, vamos perguntar o nome destes pobres, como Jesus perguntava; porque é o que a Andreia e a Aline fazem…

Ou fazemos isto, ou perderemos o direito humano de pedir alguma coisa para algum Preto velho, Caboclo ou Exu…

É por aí…

Saravá a todos.

José Augusto da Cunha Meira

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