Codificação do ritual de Umbanda (1953)

O texto a seguir, foi extraído do site cefeco.wordpress.com . Pois bem, coloco aqui a título de curiosidade, pois no programa Conversas de Terreiro deste dia 30 de Agosto, debatemos longamente a história da Umbanda e tudo que ela envolve. O texto abaixo, mostra bem as tentativas da época em organizar minimamente um ritual a parte das demais religiões Afro, e dar diretrizes mínimas para a nascente Umbanda.

Por Mário Filho¹

Em 1953 o Presidente da União Espiritista de Umbanda do Brasil, Jayme Madruga, deu uma série de entrevistas ao Jornal “A Noite” do Rio de Janeiro. Em uma delas o Presidente apresentou a “codificação” do Ritual de Umbanda, ou seja, a União Espiritista de Umbanda do Brasil, que havia sido fundada sob as ordens do Caboclo das Sete Encruzilhadas (o “Guia-Chefe” do médium Zélio Fernandino de Moraes, dirigente da Tenda Nossa Senhora da Piedade), por meio de seu Presidente, estabeleceu como deveria ser o Ritual de Umbanda.

Essa “codificação”, segundo Jayme Madruga, surgiu logo depois do 1º Congresso de Espiritismo de Umbanda, realizado no Rio de Janeiro de 1941, em razão da necessidade de uniformizar o ritual praticado em diversas Casas de Umbanda.

Para ele a codificação do ritual “não foi feita ao sabor de opiniões pessoais ou de média de opiniões. Após vários meses de estudos e de receberem os chefes de terreiros e presidentes de tendas filiadas, sugestões do espíritos, na reunião do dia 4 de novembro de 1952, na sede da Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição, foi a codificação aprovada.”

O ritual ficou assim:

SESSÃO PÚBLICA DE CARIDADE

1) Cinco minutos antes, pelo menos, da hora do início dos trabalhos (20 ou 20:30 horas), os médiuns devem esta no Terreiro, concentrados em silêncio;

2) preparo do ambiente por meio do defumador, com ponto cantado, que pode ser um dos três constantes do anexo (o jornal não exibiu o anexo);

3) prece (proferida pelo diretor de Assistência Espiritual ou alguém credenciado para tal);

4) continuação do preparo do ambiente por meio de uma explanação doutrinária, filosófica, sobre a prática da Umbanda ou de moral (cerca de 15 minutos de duração);

5) declaração de abertura dos trabalhos em nome de Deus ou Zambi, de Oxalá ou Jesus, do Patrono da Casa, do Guia-Chefe da Casa e de todos os trabalhadores invisíveis de Umbanda;

Parágrafo único: Em dias de festa de Santo, a abertura deve ser feita em nome de Zambi, de Oxalá, do Santo do dia, do Patrono da Casa, do Guia-Chefe da Casa e de todos os trabalhadores invisíveis de Umbanda;

6) Ponto de Oxalá (cantado), que deve ser um dos constantes do anexo. Os médiuns de joelhos ou deitados, conforme organização da Casa;

7) Saudação ao patrono da Casa (ponto de prece) como no anterior;

Parágrafo único: em dias de festa de Santo, deve ser antes, saudado o santo do dia.

8) Ponto (cantado) da chamada do Guia-Chefe da Casa para sua incorporação ou não;

Parágrafo único: Quando o Guia-Chefe da Casa não incorporar, por qualquer motivo, deve ser tirado o ponto em seguida para o Guia substituto;

9) Saudação ao Guia-Chefe da Casa, de acordo com a organização de cada Tenda;

10) Ponto (cantado) de chamada dos Guias que vão trabalhar;

11) Início da parte espiritual propriamente dita, sessões de passes mediúnicos, correntes de descarga, doutrinação se obsessores, sessões de descarga de trabalhos etc.

ENCERRAMENTO

1) Ponto de subida dos Guias (menos o Guia-Chefe) depois de serem atendidos os assistentes ou terminados os trabalhos;

2) Saudação ao Guia-Chefe;

3) Ponto de Subida do Guia-Chefe;

4) Ponto-prece de despedida que deve ser cantado com os médiuns ajoelhados ou deitados, conforme a praxe da Casa;

5) Prece de agradecimento (final);

6) Declaração de encerramento dos trabalhos em nome de Deus ou Zambi, de Oxalá ou Jesus, do Patrono da Casa, do Guia-Chefe da Casa e de todos os trabalhadores invisíveis de Umbanda.

(Fonte: Jornal de Umbanda: órgão noticioso e doutrinário da União Espiritista de Umbanda. Rio de Janeiro, Mai-Jun 1953, nº 31, p. 1, 3)

¹ Sacerdote afro-religioso. É dirigente do Templo Espiritual Pantera Negra e do Ilé Ifá Ajàgùnmàlè Olóòtọ́ Aiyé. Bacharel, Mestre e Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública,  pelo Centro de Altos Estudos de Segurança; Especialista em Políticas Públicas de Gestão em Segurança Pública, Especialista e Mestre em Ciência da Religião (todas pela PUC/SP), Especialista em História da África e do Negro no Brasil pela UCAM/RJ. Professor do Programa de Pós Graduação (Mestrado e Doutorado) do Centro de Altos Estudo em Segurança. Endereço eletrônico: ezezide@gmail.com

1 Comment

  1. Excelente texto, fácil e rápido de ser lido! Nossa história, a história da umbanda, daqueles que pavimentaram a estrada que agora caminhamos! Excelente Pai Preto!

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