A Macumba Carioca

Com a abolição da escravatura em 1888, o governo brasileiro deu a liberdade aos milhares de escravos que havia no Brasil sem um plano de apoio as novas condições a que os negros foram submetidos. Enquanto escravos tinham tratamento de saúde ,alimentação e moradia, libertos perderam esses direitos e tiveram que viver por sua própria conta. Consta que no Rio de Janeiro de então havia cerca de 1500 negros libertos, a estes foram se juntar um contingente muito maior formados pelos libertos das fazendas de café e cana de açúcar existentes no em torno da cidade avançando pelo interior passando pelo Espírito Santo e sul da Bahia. Estes negros vinham para a cidade grande atraídos por melhores condições de emprego já que as fazendas preferiam contratar mão de obra branca de imigrantes europeus.

O contingente negro baiano, que chegou ao Rio de Janeiro através da migração interna, no final do século XIX, atraído pelas condições da cidade, devido à sua modernização como capital da República e à sua fama de tolerância, vai modificar substancialmente a fisionomia da cidade, incrementando traços próprios de sua cultura. Esses migrantes vão se localizar perto do Cais do Porto, Saúde e Gamboa, onde a moradia era mais barata, não só por já ser local de fixação de outros grupos negros, mas, sobretudo pela proximidade do porto, onde podiam mais facilmente encontrar empregos na estiva. Aí formaram uma comunidade conhecida como a Pequena África, onde suas manifestações culturais puderam ser preservadas, legando à cidade um valioso patrimônio cultural, destacando-se especialmente através da música e da religião.

Trouxeram para o Rio de Janeiro, através da migração, o culto dos orixás. Com eles chegaram muitos líderes religiosos e grupos festeiros, responsáveis pelo desenvolvimento dos Candomblés e por inúmeras associações carnavalescas.

A área onde se instalou essa comunidade constituía-se em uma das partes mais antigas da cidade e, por esse motivo, encontrava-se abandonada pelos setores dominantes. Eram velhos casarões, transformados em casas de cômodo, as conhecidas “cabeças de porco” ou cortiços, que também se estendiam pelas adjacências da Praça Onze e adentravam o centro da cidade.

Esse Rio de Janeiro, eminentemente negro, afrontou a elite dominante carioca, que seguia o modelo europeu. A única forma de branquear a cidade e torná-la compatível com a ideologia positivista foi a de iniciar o processo de modernização, mandando demolir os prédios antigos, afastando dessa forma seus ocupantes.

O projeto modernizador da cidade, implementado a partir do início do século XX, obrigou o translado de vários grupos para locais então periféricos. Com o centro da cidade demolido, surgiu a opção para a Cidade Nova. As favelas, construídas com materiais dessas demolições, absorveram grande parte dessa população. Outro contingente expressivo se encaminhou para os subúrbios cariocas, como Madureira, Coelho da Rocha e outras localidades da Baixada Fluminense.

Agenor Miranda da Rocha, conhecido como Oluo (adivinho), escreve suas memórias, vivenciadas em mais de noventa anos, enumerando e localizando as primeiras casas de santo do Rio: Mãe Aninha de Xangô funda sua Casa no bairro da Saúde em 1886, depois transferida para São Cristóvão, instalando-se definitivamente em Coelho da Rocha; João Alabá (Omolu), na Rua Barão de São Félix, Saúde; Cipriano Abedé (Ogum), na Rua João Caetano; Benzinho Bamboxê (Ogum), na Rua Marquês de Sapucaí.

Uma das comunidades Jêje encontradas no Rio de Janeiro à época era a de Rosena de Bessein (Azinossibale); africana natural de Allada, que funda o terreiro Kpódagbá no bairro da Saúde, que foi herdado por sua filha- de- santo Adelaide do Espírito Santo, também conhecida como Untinha de Olá (Devodê), que tornou – se a Mejitó do terreiro e transferiu a Casa de santo ou Terreiro para o bairro de Coelho da Rocha. Com o falecimento desta Mejitó (sacerdotisa), assumiu Glorinha de Oxum, mas conhecida como Glorinha Tokueno, herda o terreiro, e atualmente o Kpádagbá está localizado na Rua Julieta nº. 12 – Abolição. Então fruto dessa migração interna e desse assentamento de comunidades negras se misturam em profusão ritos e cultos de diversas nações.

Candomblés diversos, adivinhos, terreiros de Omoloko, Casas de Cabula, adivinhos, feiticeiros de todos os matizes, pajelanças etc.

Tudo isto é colocado dentro de um mesmo caldeirão religioso que se tornou a cidade do Rio de Janeiro. Junte-se a isto o Espiritismo que aqui chegou por volta de 1873, trazido pelas elites e logo absorvido pelo caldeirão. A cidade então ferve misticismo, tudo é feitiço e magia. Proliferam em abundancia as casa espíritas chamadas de centros, mas também aumentam o charlatanismo e a mistificação.

Havia o culto as deusas do mar, prática disseminada nas colônias de pescadores existentes m toda a Baía de Guanabara . Viviam todos muito calmos, sem saber do resto do mundo. Enfim, uma classe à parte, com festas próprias, que não se afasta do oceano e é unida pelo culto do mar. Havia colônias só de portugueses, como a de Santa Luzia e de Santo Cristo, de portugueses e brasileiros, como em Sepetiba, de italianos apenas, e de brasileiros sómente. Uma série de núcleos ligados pela crença. São outros homens. Nascem de mães pescadoras, partejadas quase sempre por curiosas, vivem nas praias, nunca as abandonam. Aos quatro anos nadam, aos dez remam e acompanham os parentes às pescarias, e assim passam a existência, familiarizados apenas com as redes, os apetrechos de pesca e o calão, o pitoresco calão marítimo.

“O oceano imprime-lhe um cunho especial, são propriedades do mar. Nunca reparaste nos pescadores? Têm os pés diferentes de todos, uns pés contráteis que se crispam nas pranchas como os dos macacos; andam a bambolear, balouçando como um barco, e a sua pele lustrosa tem o macio grosso dos veludos. A alma dessa gente conserva-se ondeante, maravilhosa e simples. Não há nenhum que não tema a Mãe D’água, a Sereia, os Tritões e não respeite a Lua.”

Existiam três manifestações desse culto. A Mãe D’água entre os pescadores de Santo Cristo e de Santa Luzia, a da Lua e do Mar e a do Arco-Íris.

 Enfim, sob estas influências e neste ambiente que temos as primeiras manifestações da Umbanda, onde nossos guias começam por baixar nas mesas espíritas dos centros Kardecistas, onde eram convidados a se retirar, nos cultos de origem africana, nos Candomblés e nas macumbas onde eram recebidos. Não queremos aqui fazer juízo de qualquer uma dessas manifestações religiosas, mas sim, afirmar que a Umbanda carrega certamente um pouco de cada uma dessas roupagens.

Em 1908, o Caboclo das 7 Encruzilhadas através de seu médium, Zélio Fernandino de Moraes coloca-se como um divisor de águas, e funda, ou menciona pela primeira vez o vocábulo Umbanda, fundando assim, uma nova religião, e a separando das demais religiões afro da época. Há também aqueles que afirmam que Umbanda é uma dissidente, ou uma Macumba carioca com uma vestimenta um tanto “embranquecida”, ou com umas pitadas de eurocentrismo.

Seja como for, não podemos negar Zélio, nem a herança das Macumbas, e assim podemos dizer: Tá tudo certo!

Este Texto tem como fonte de pesquisa o site do Terreiro Tio Antônio

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